
Porque É Que o Gás Está a Disparar na Europa, e o Que Isso Muda em Portugal
Porque É Que o Gás Está a Disparar na Europa, e qual é o impacto ou não em Portugal 💨
O preço do gás natural na Europa está a subir com força desde finais de agosto, depois de a tensão entre os Estados Unidos e o Irão ter chegado a uma das rotas mais importantes do transporte mundial de gás. As reservas europeias estão abaixo do normal para esta altura do ano, e há analistas a admitir que o inverno pode ficar caro. Portugal está numa posição relativamente mais confortável do que a maioria dos países da UE, mas "relativamente mais confortável" não é o mesmo que "imune". Explicamos a ligação entre os dois.
Nas últimas semanas, o mercado europeu do gás voltou a mexer, e desta vez a causa não está na fatura de ninguém em particular, está a milhares de quilómetros de distância, no Estreito de Ormuz.
O que está a acontecer exatamente 🔍
O contrato de referência do gás natural na Europa, negociado na bolsa holandesa TTF, subiu para cerca de 71€ por megawatt-hora, o valor mais alto desde março. No Reino Unido, o contrato equivalente (NBP) subiu 6,4% numa única semana. Segundo o Goldman Sachs, se as condições atuais se mantiverem, o preço do gás na Europa pode ultrapassar os 100€/MWh já este inverno, mais do dobro do que estava há um ano.
A causa imediata é a escalada de tensão militar entre os Estados Unidos e o Irão, com ataques aéreos norte-americanos junto ao Golfo Pérsico e represálias iranianas contra bases dos EUA na região, além de declarações públicas sobre a possibilidade de novos ataques a infraestruturas iranianas. Este tipo de notícia é normalmente tratada como assunto de política internacional, mas tem uma ligação direta e imediata ao preço da energia que qualquer casa europeia paga.
Porque é que um conflito no Médio Oriente mexe com o gás na Europa 🧐
A ligação está no Estreito de Ormuz, a passagem marítima entre o Golfo Pérsico e o Oceano Índico por onde passa, segundo estimativas do setor, cerca de um quinto de todo o gás natural liquefeito (GNL) transacionado no mundo. Não é preciso que o estreito feche para o preço subir, basta que os mercados considerem mais provável uma interrupção, porque o preço do gás, tal como o do petróleo, reage tanto ao que já aconteceu como ao que pode vir a acontecer.
Com esse risco em cima da mesa, os grandes compradores mundiais de GNL, incluindo países europeus, países asiáticos e os Estados Unidos, competem pelos mesmos carregamentos disponíveis fora dessa rota, o que empurra o preço para cima em todo o mercado global, não apenas na zona diretamente afetada.
As reservas europeias estão mais baixas do que o habitual para esta altura do ano ⚠️
A isto soma-se um segundo problema, mais estrutural. As reservas de gás da União Europeia estão em cerca de 62% da capacidade total, 17 pontos percentuais abaixo da média sazonal dos últimos cinco anos para esta data. Segundo análises citadas pela imprensa económica, a Europa precisaria de injetar mais de 100 terawatts-hora de gás nas próximas semanas, o equivalente a mais de 7 mil milhões de euros aos preços atuais, só para chegar à meta mínima de 75% de armazenamento antes do inverno. O ritmo de reposição atual é descrito como o mais lento para esta época do ano desde a crise energética de 2022.
Isto não significa que vá faltar gás às casas europeias. Significa que há menos margem de segurança do que é habitual, o que deixa o mercado mais sensível a qualquer notícia nova, seja ela sobre o Médio Oriente, sobre uma vaga de frio antecipada ou sobre uma manutenção não planeada numa infraestrutura de GNL.
E Portugal? Está mais ou menos exposto do que o resto da Europa? 🇵🇹
Aqui há uma distinção importante, e vale a pena não simplificar de mais.
Portugal não importa gás do Médio Oriente desde 2020, ano em que o Qatar deixou de figurar como fornecedor. Atualmente, os principais fornecedores de gás natural a Portugal são a Nigéria e os Estados Unidos, com pequenas quantidades adicionais de outras origens, e o gás chega sobretudo por navio ao terminal de GNL de Sines, sendo parte reexportada para Espanha. Nesse sentido, Portugal não depende diretamente da rota que está sob tensão.
Portugal entra também no inverno com as reservas de gás a cerca de 88% da capacidade, a segunda percentagem mais alta da União Europeia, só atrás da Polónia, e bem acima da média europeia de 62%. É uma posição relativamente confortável.
Mas há um "mas" que interessa perceber: a capacidade de armazenamento de gás de Portugal é pequena em termos absolutos, porque o país tem pouca capacidade de armazenamento subterrâneo comparado com o seu consumo. Estar a 88% dessa capacidade representa apenas cerca de 7% do consumo anual português, enquanto a média europeia, mesmo a 62%, representa quase 20% do consumo anual desses países. Ou seja, Portugal enche depressa o que tem, mas o que tem é proporcionalmente pequeno. A posição é melhor do que a média europeia, não é uma almofada ilimitada.
"Mas eu não tenho gás em casa." Ainda assim, a eletricidade pode ser afetada 🤯
Este é o ponto que costuma passar despercebido. Mesmo quem só tem contrato de eletricidade, sem gás, pode sentir o efeito desta subida, por causa de como funciona o mercado ibérico de eletricidade (MIBEL). Uma parte da eletricidade em Portugal e Espanha continua a ser produzida em centrais a gás natural, e o mecanismo de fixação de preço do MIBEL costuma usar o custo da última central necessária para satisfazer a procura, muitas vezes uma central a gás, para definir o preço que se aplica a toda a eletricidade transacionada nesse período.
Durante 2022 e 2023, existiu o chamado mecanismo ibérico, um limite especial ao preço do gás usado para produzir eletricidade em Portugal e Espanha, precisamente para amortecer este efeito. Esse mecanismo terminou no final de 2023 e não foi renovado, por decisão dos governos português e espanhol. Isto significa que, hoje, uma subida do preço do gás na Europa passa para o preço grossista da eletricidade no MIBEL de forma mais direta do que passava durante os anos em que o mecanismo esteve ativo, tal como já vimos noutro contexto no artigo sobre a mudança de tarifário da G9 (manie.pt/blog/g9-fim-tarifas-fixas-indexado).
O que isto significa para a tua fatura este inverno ❄️
Não significa um número certo, porque depende do tipo de contrato que tens. Se estás numa tarifa fixa, seja de eletricidade ou de gás, o preço por kWh que assinaste mantém-se durante o período contratado, independentemente do que acontece no TTF ou no OMIE esta semana, isso é precisamente a função de um contrato fixo. Se estás num tarifário indexado, atualizado com maior frequência ao mercado grossista, este tipo de subida tende a refletir-se mais depressa na fatura.
Isto soma-se, mas não se confunde, com a subida de 6,4% já confirmada pela ERSE para as tarifas de gás natural do mercado regulado, em vigor a partir de 1 de outubro, e que já explicámos com detalhe noutro artigo (manie.pt/blog/gas-mais-caro-outubro-2026). Essa decisão da ERSE já tinha em conta previsões de custos mais altos para o ano-gás 2026-2027, precisamente por causa da incerteza no Médio Oriente. O que está a acontecer agora no mercado grossista europeu é o tipo de fator que pode manter essa pressão, ou agravá-la, nos meses seguintes, sem que isso implique uma nova decisão automática sobre a tua fatura em concreto.
O Manie continua a acompanhar isto por ti 🤝
O mercado da energia não é um sítio parado, é influenciado por decisões da ERSE, por comercializadoras, mas também por acontecimentos do outro lado do mundo que ninguém em casa consegue prever nem controlar. O que está ao teu alcance é saber que tipo de contrato tens, se é fixo ou indexado, e se continua a ser a opção mais competitiva para o teu consumo à medida que estas coisas mudam.
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Perguntas frequentes 🙋
O preço do gás vai mesmo ultrapassar os 100€/MWh este inverno?
É uma previsão do Goldman Sachs num cenário de continuação das condições atuais, não uma certeza. O preço do gás grossista pode subir ou descer consoante evoluam a tensão no Médio Oriente, o ritmo de reposição das reservas europeias e o clima do inverno.
Portugal corre risco de falta de gás?
Não há, para já, qualquer indicação disso. Portugal não importa gás do Médio Oriente desde 2020 e entra no inverno com uma das percentagens de armazenamento mais altas da União Europeia. A ressalva é que essa capacidade de armazenamento, em termos absolutos, é pequena face ao consumo do país.
Se só tenho eletricidade, sem gás, isto afeta-me?
Pode afetar, porque uma parte da eletricidade em Portugal é produzida em centrais a gás, e o mecanismo de preço do MIBEL costuma refletir o custo dessa produção no preço geral da eletricidade, sobretudo desde que o mecanismo ibérico de limitação do preço do gás terminou, no final de 2023.
Isto está relacionado com a subida de 6,4% do gás anunciada pela ERSE para outubro?
São coisas relacionadas mas distintas. A subida de 6,4% no mercado regulado já foi decidida pela ERSE com base em previsões de custos para o ano-gás 2026-2027. A tensão atual no mercado europeu é o tipo de fator que influenciou essa previsão e que pode continuar a pressionar os preços nos meses seguintes.
O que posso fazer, na prática, além de esperar para ver?
Vale a pena perceberes se o teu contrato atual, de eletricidade ou de gás, é fixo ou indexado, porque isso determina quanto e com que rapidez uma subida no mercado grossista chega à tua fatura. Comparar isso com o que está disponível no mercado é o primeiro passo, sobretudo se o teu contrato indexado nunca foi revisto.


