
Portugal produz 75% de energia renovável, mas tem 60 mil milhões bloqueados 🚫 🌱
Portugal produz 75% de energia renovável, mas tem 60 mil milhões bloqueados 🚫 🌱
No primeiro semestre de 2026, Portugal fez algo que poucos países europeus conseguem, tendo gerado 75,6% da sua eletricidade a partir de fontes renováveis, segundo o Boletim Eletricidade Renovável da APREN (Associação Portuguesa de Energias Renováveis), e chegou a ter 692 horas, quase 29 dias completos, em que o consumo nacional foi coberto inteiramente por energia limpa. Este resultado colocou o país em 4º lugar na União Europeia nesta métrica, atrás apenas da Noruega, Dinamarca e Áustria.
Ao mesmo tempo, um estudo da Nova School of Business and Economics e da Lobo Carmona, feito para a própria APREN e divulgado a 15 de julho, revela que há 60 mil milhões de euros em investimento renovável parados no país, sobretudo por causa de licenciamentos que demoram entre cinco a sete anos, contra cerca de 18 meses na Alemanha, e ainda por falta de capacidade na rede elétrica e por ausência de novos leilões desde 2022.
São como duas versões do mesmo país a coexistir ao mesmo tempo, uma que já se tornou um dos sistemas elétricos mais renováveis da Europa e outra que continua a travar-se a si própria na velocidade a que poderia crescer ainda mais.
Os números que comprovam o sucesso 🤝
No acumulado do primeiro semestre, Portugal Continental gerou 25.806 GWh de eletricidade, dos quais cerca de 19.509 GWh vieram de fontes renováveis, entre hídrica, eólica, solar e biomassa, e é precisamente este mix que ajuda a explicar por que razão o preço médio do MIBEL em Portugal ficou nos 48,8 €/MWh ao longo do semestre, uma descida de 22,9% face ao mesmo período de 2025, que colocou o país entre os mercados grossistas mais competitivos da Europa.

Gráfico 1: Preço médio MIBEL entre 2025 e 2026 - Mercado Ibérico de Eletricidade
Para quem paga a fatura, isto deveria significar uma coisa relativamente simples, que mais oferta renovável e mais barata tende a puxar os preços grossistas para baixo, o que acaba por se refletir nas tarifas, sobretudo nas que estão indexadas ao mercado.

Imagem 1: Energias Renováveis - Quais são as utilizadas em Portugal?
Mas julho veio lembrar que "mais barato em média" não é "sempre barato" 💸
É aqui que a história fica mais interessante e mais relevante para quem tem um contrato de eletricidade em casa, porque enquanto o semestre fechava com preços historicamente baixos, julho de 2026 caminha para ser o mês mais caro de eletricidade desde o apagão ibérico. Durante a onda de calor da primeira semana do mês, os contratos diários chegaram a negociar entre 90,57 €/MWh e 112,87 €/MWh, com Portugal a pagar inclusivamente um prémio sobre Espanha devido à saturação da interligação entre os dois países.
A causa não chega a ser propriamente um mistério, mais calor significa mais ar condicionado ligado ao mesmo tempo, a procura sobe a pique precisamente nas horas de ponta, e o preço grossista sobe com ela, independentemente de o sistema, no cálculo do ano, continuar dominado por renováveis.
É exatamente este contraste entre uma média baixa e picos pontuais bem altos que explica porque é que uma tarifa que fazia sentido em janeiro pode deixar de fazer sentido em julho, e vice-versa, porque o mercado elétrico português não ficou resolvido só por ter tido um semestre bom, continua a mover-se o tempo todo, e o teu contrato não se move sozinho com ele.
Os 60 mil milhões parados e onde está o travão 🤷♀️
O estudo feito para a APREN identifica com bastante precisão onde está o problema, a começar pelos prazos de licenciamento de projetos renováveis em Portugal, que chegam a durar entre cinco e sete anos, longe da média de cerca de 18 meses registada, por exemplo, na Alemanha. A isto soma-se uma rede de transporte elétrico sem capacidade suficiente para escoar tudo o que o país precisaria de instalar, sendo que o Plano Nacional Energia e Clima (PNEC) 2030 exige mais 22,2 GW de capacidade renovável adicional, e ainda a ausência de novos leilões de capacidade desde 2022, o que retira previsibilidade a quem quer investir.
Há ainda um fator fiscal que o estudo destaca como praticamente único na Europa, o facto de Portugal manter a Contribuição Extraordinária sobre o Setor Energético, conhecida como CESE, uma taxa permanente sobre o valor líquido dos ativos que incide independentemente da rentabilidade dos projetos, e que, segundo o documento, nenhum outro país europeu aplica desta forma e com esta permanência aos produtores de energia renovável.
O custo de tudo isto está longe de ser abstrato, o setor entregou 1,1 mil milhões de euros em contribuição fiscal ao Estado em 2024, um valor que, segundo o estudo, poderia duplicar para 2,8 mil milhões se os investimentos bloqueados fossem destravados, e cada ano de atraso representa, segundo a APREN, uma perda estimada de 1,7 mil milhões de euros em receita fiscal potencial.
Há também um risco competitivo direto, porque com os leilões parados e os licenciamentos tão lentos, projetos que poderiam ser instalados em Portugal, nomeadamente na eólica offshore, arriscam-se a procurar mercados vizinhos, como Espanha, onde o processo tende a ser mais previsível.
A EDP também está a olhar lá para fora 🌍
Este contexto ajuda a explicar uma decisão que a EDP anunciou recentemente, já que o seu plano estratégico para 2026-2028 prevê 12 mil milhões de euros de investimento, dos quais 7,5 mil milhões através da EDP Renováveis, mas com cerca de 60% desse investimento em renováveis a ir para os Estados Unidos, e não para Portugal ou para a Europa. Os restantes 3,6 mil milhões, destinados a redes elétricas, ficam sobretudo na Península Ibérica.
Quando a maior elétrica portuguesa decide concentrar a maior fatia do investimento em renováveis fora do país onde nasceu, isso não acontece por acaso, é antes um sinal bastante claro de onde é hoje mais fácil, mais rápido e mais previsível construir.

Gráfico 2: 60% do investimento em energias renováveis é remetido para os EUA
O que isto significa, na prática, para quem paga a fatura 🙌🏻
Nenhum destes números muda a fatura de ninguém isoladamente, mas o que eles mostram, em conjunto, é que o mercado elétrico português está a mexer-se em duas velocidades diferentes, uma operacional, onde o sistema já é maioritariamente renovável e reage a cada onda de calor ou período de vento fraco, e outra estrutural, onde a burocracia trava o investimento que resolveria esta volatilidade de forma mais definitiva.
O que isto quer dizer para o teu contrato depende do teu perfil de consumo. Quem tem tarifa indexada ao mercado grossista sente estes picos e quedas quase em tempo real, beneficia nos meses de preços baixos, como foi a média do semestre, mas paga mais nas semanas de onda de calor, como aconteceu em julho. Quem tem tarifa de termo fixo está protegido da volatilidade de curto prazo, mas fica dependente de ter fechado esse preço fixo numa altura competitiva, e de o rever quando o contrato deixar de ser vantajoso. Não há uma resposta certa para todos, há uma resposta certa para o teu consumo, a tua potência contratada e os teus horários de utilização.
O que este cenário deixa claro é que a energia em Portugal não é um problema que se resolve de uma vez para sempre, é antes um sistema em movimento constante, tecnicamente cada vez mais limpo mas ainda estruturalmente lento a corrigir-se, e por isso um contrato assinado há um ano dificilmente reflete as condições de hoje.
É por isso que o Manie existe, para acompanhar continuamente as faturas, os consumos e as ofertas do mercado livre, e para avançar com uma mudança, quando a mesma compensa, em vez de deixar essa análise para uma comparação pontual que rapidamente fica desatualizada.
Perguntas frequentes 🙋
Portugal é dos países mais renováveis da Europa?
Sim. No 1º trimestre de 2026, Portugal foi o segundo Estado-membro da União Europeia com maior produção de eletricidade a partir de fontes renováveis, com 82,9%, atrás apenas da Dinamarca (90,0%), segundo dados do Eurostat.
Se há tanta energia renovável, porque é que a fatura não desce sempre?
Porque o preço grossista do MIBEL reflete a oferta e a procura em cada momento, e não apenas a média do ano, e uma onda de calor com maior consumo de ar condicionado, por exemplo, pode fazer disparar os preços durante vários dias seguidos, mesmo num sistema predominantemente renovável, como aconteceu em julho de 2026.
O que são os 60 mil milhões de euros bloqueados?
Referem-se a intenções de investimento em projetos de energia renovável em Portugal que não avançam devido a prazos de licenciamento longos, entre cinco e sete anos, à falta de capacidade na rede elétrica e à ausência de novos leilões de capacidade desde 2022, segundo um estudo da Nova SBE e Lobo Carmona feito para a APREN.
Vale mais a pena ter tarifa indexada ou termo fixo?
Depende do perfil de consumo de cada pessoa. As tarifas indexadas ao mercado grossista acompanham de perto a volatilidade dos preços, o que é vantajoso em períodos de preços baixos mas mais caro em picos como o de julho, enquanto as tarifas fixas protegem da volatilidade de curto prazo mas só compensam se o preço fixado continuar competitivo ao longo do contrato. Não existe uma opção universalmente melhor para todos os casos.
Como é que o Manie ajuda com isto?
O Manie lê a fatura real, identifica o consumo, a potência contratada e o ciclo horário, e usa o AutoSwitch para monitorizar continuamente o mercado livre de eletricidade e gás, executando uma mudança de comercializadora quando surge uma oferta claramente mais vantajosa para esse perfil de consumo específico.


