Logo manie
table_viewSimulador
AutoSwitch
businessManie Empresas
auto_storiesBlogSobre nós
speedSimulador
AutoSwitch
Manie Empresas
postBlog
Sobre nós
Portugal poupou quase 2 mil milhões de euros com renováveis em 2026
Notícias de EnergiascheduleLeitura de 12 min2 de Novembro de 2026

Portugal poupou quase 2 mil milhões de euros com renováveis em 2026

Carlota Neves
Carlota Neves

Portugal poupou quase 2 mil milhões de euros com renováveis em 2026

Entre janeiro e setembro de 2026, a produção de eletricidade a partir de fontes renováveis permitiu a Portugal evitar cerca de 1,92 mil milhões de euros em custos, segundo as estimativas da APREN, a Associação Portuguesa de Energias Renováveis. Desse total, 974 milhões de euros correspondem a gás natural que não foi preciso importar, 387 milhões a eletricidade que não foi preciso comprar ao estrangeiro e 560 milhões a licenças de emissão de CO₂ que não foi preciso pagar, o que equivale a 7,8 milhões de toneladas de dióxido de carbono que ficaram por emitir.

O número é grande, mas convém perceber bem o que ele é e, sobretudo, o que ele não é. Trata-se de uma poupança do sistema elétrico no seu conjunto, calculada por uma associação que representa os produtores de energia renovável, e não de um desconto que apareça automaticamente na fatura de cada casa. Ainda assim, esta poupança tem um efeito real sobre o preço a que a eletricidade é comprada e vendida em Portugal, e a forma como esse efeito chega, ou não, ao que pagas todos os meses depende em grande medida do tipo de tarifa que tens contratada. É isso que explicamos a seguir.

De onde vêm os 1,92 mil milhões de euros? 💶

O valor resulta de três parcelas que a APREN calcula todos os meses no seu Boletim Eletricidade Renovável, com base nos dados de produção da REN e nos preços do mercado grossista. A lógica é simples, porque cada kWh produzido por uma barragem, um parque eólico ou uma central solar é um kWh que não foi produzido numa central a gás natural, nem importado de Espanha, nem acompanhado de uma licença de emissão de CO₂, e a associação estima quanto é que cada uma dessas alternativas teria custado aos preços praticados em cada momento.

Custo evitado entre janeiro e setembro de 2026

Valor estimado pela APREN

Importações de gás natural

974 milhões de euros

Importações de eletricidade

387 milhões de euros

Licenças de emissão de CO₂

560 milhões de euros

Total

1 921 milhões de euros

Por trás destes números está um ano particularmente renovável. Entre janeiro e setembro de 2026, 74,1% da eletricidade produzida em Portugal teve origem em fontes renováveis, o que coloca o país em quarto lugar na Europa, atrás da Noruega (97,6%), da Dinamarca (95,2%) e da Áustria (80,8%). Só em setembro, as renováveis garantiram 70,8% da produção, ou seja, 2 336 GWh de um total de 3 300 GWh, com a eólica a representar 21,7%, a hídrica 21,5% e a solar 20,5%, um equilíbrio pouco habitual entre as três tecnologias. Desde o início do ano houve ainda 715 horas não consecutivas em que a produção renovável bastou para cobrir todo o consumo do país, o equivalente a cerca de 30 dias completos.

Este peso resulta de um crescimento continuado da capacidade instalada. No final de agosto de 2026, as fontes renováveis representavam 79,6% da capacidade elétrica instalada em Portugal, depois de um crescimento de 9 328 MW desde 2016, o que corresponde a um aumento de 69,6% em dez anos, e a solar fotovoltaica representou 527 MW dos 804 MW instalados entre dezembro de 2025 e agosto de 2026.

Porque é que as renováveis fazem baixar o preço da eletricidade? ⚙️

O preço da eletricidade em Portugal forma-se todos os dias no MIBEL, o mercado ibérico gerido pelo OMIE, onde os produtores apresentam propostas de venda para cada hora do dia seguinte e o operador as ordena da mais barata para a mais cara até cobrir a procura prevista. A última central necessária para satisfazer a procura é a que fixa o preço, e esse preço aplica-se depois a toda a eletricidade vendida nessa hora. É a isto que se chama ordem de mérito.

As centrais eólicas, solares e hídricas entram quase sempre no início dessa fila, porque não gastam combustível e podem vender a preços muito baixos ou mesmo nulos, enquanto as centrais a gás natural ficam no fim, porque cada MWh que produzem custa o gás que queimam e a licença de CO₂ que emitem. Numa hora com muito vento e sol, a procura fica satisfeita antes de ser preciso ligar o gás e o preço cai. Numa hora sem vento e já de noite, o gás volta a ser a central marginal e o preço sobe para refletir o seu custo. Por isso, quantos mais kWh renováveis houver no sistema, menos horas há em que o gás dita o preço.

Os números do primeiro semestre de 2026 ilustram bem este efeito. O preço médio do MIBEL em Portugal fixou-se em 48,8 €/MWh entre janeiro e junho, uma descida de 22,9% face ao mesmo período de 2025, num semestre em que as renováveis asseguraram 75,6% da produção e em que se registaram 692 horas com consumo totalmente coberto por fontes renováveis. A APREN estima que, só por efeito da ordem de mérito, a produção renovável em regime especial tenha induzido uma poupança de 3 930 milhões de euros no mercado grossista nesse semestre, um valor que não se soma aos 1,92 mil milhões referidos acima, porque mede uma realidade diferente, nomeadamente o preço que teria sido pago se essas centrais não existissem.

O mesmo mecanismo funciona no sentido contrário, e o verão de 2026 mostrou-o. Com menor peso das renováveis a partir do terceiro trimestre e com o gás natural encarecido pelo conflito no Médio Oriente, o custo de aquisição de energia ficou 0,0176 €/kWh acima do previsto em dezembro, e foi essa a justificação da ERSE para a atualização da tarifa de energia do mercado regulado, com um impacto de cerca de 2,7% na fatura média, que entrou em vigor a 1 de outubro de 2026. As renováveis fazem descer o preço quando produzem, mas nas horas em que não produzem o custo do gás continua a determinar o preço.

Esta poupança chega à tua fatura? 🧾

Chega, mas de forma indireta, com atraso e em medidas diferentes consoante o tipo de tarifa. O primeiro motivo é que o preço grossista só influencia a componente de energia da fatura, enquanto as tarifas de acesso às redes, fixadas pela ERSE, e os impostos não dependem de quanto vento houve nesse mês. O segundo motivo é que a maioria das casas não compra eletricidade ao preço do dia, mas sim a uma comercializadora que fixou o seu preço com antecedência.

Quem tem uma tarifa indexada é quem sente este efeito de forma mais direta, porque o preço por kWh acompanha o MIBEL quase em tempo real. Num período como os primeiros quatro meses de 2026, em que a produção renovável foi de 77% e o preço médio grossista acumulado rondou os 42 €/MWh, a fatura desce de forma visível. No verão, pelas razões já descritas, a mesma tarifa ficou bastante mais cara. A tarifa indexada capta a poupança das renováveis nos meses favoráveis e paga o custo do gás nos meses desfavoráveis, e por isso só compensa para quem aceita essa variação.

Quem tem uma tarifa fixa está protegido das subidas, mas também não beneficia de imediato das descidas. A comercializadora comprou a energia antecipadamente a um preço que refletia as expectativas do mercado no momento em que a tarifa foi desenhada, e esse preço mantém-se até ao fim do período contratado, mesmo que entretanto o mercado tenha descido 22,9%, como aconteceu no primeiro semestre. A poupança das renováveis só chega quando a comercializadora lança novas tarifas mais baratas ou quando mudas de contrato. Se a tua tarifa fixa foi contratada há mais de um ano, vale a pena confirmar se o preço ainda reflete o mercado atual, e o AutoSwitch consegue ajudar com isto.

No mercado regulado, o caminho é ainda mais lento, porque é a ERSE que fixa a tarifa uma vez por ano com base em previsões. Em dezembro de 2025, o regulador fixou para 2026 uma subida global de apenas 1%, com a componente de energia a descer 2,6% porque previa preços de energia mais baixos, uma descida que a APREN atribuiu ao peso das renováveis. Quando o verão se revelou pior do que o previsto, a ERSE corrigiu a tarifa a meio do ano e a variação anual passou para 1,7%. A longo prazo, porém, o efeito é significativo, e um estudo encomendado pela APREN à EY-Parthenon estima que a produção renovável tenha poupado quase 42 mil milhões de euros ao mercado elétrico ibérico entre 2018 e 2025, o que em 2024 terá representado uma redução de até 636 euros por ano na fatura de uma família, um valor máximo que depende muito do consumo de cada casa e que deve ser lido como uma estimativa do próprio setor.

Quais são os limites desta poupança? ⚠️

O primeiro limite é a meteorologia. A hídrica e a eólica dependem de chuva e de vento, e um trimestre com pouca chuva e pouco vento obriga a ligar mais centrais a gás e a importar mais eletricidade, com o preço a subir em consequência. Em junho, por exemplo, Portugal teve um saldo importador de 1 447 GWh, mesmo num mês em que 71% da produção nacional foi renovável, porque a produção não foi suficiente para cobrir um consumo de 4 234 GWh.

O segundo limite é a rede. A própria APREN reconhece que o país precisa de acelerar o investimento nas redes de transporte, no armazenamento em grande escala e na flexibilização das regras de mercado, porque sem isso parte da energia renovável produzida nas horas de maior abundância não consegue ser aproveitada nem valorizada. Nas horas em que há produção a mais, o preço grossista chega a ser negativo, como aconteceu em abril de 2026 com um mínimo de -7,51 €/MWh, o que é bom para quem consome nesse momento, mas significa também que há energia a ser desperdiçada.

O terceiro limite é metodológico. Os 1,92 mil milhões de euros são uma estimativa de custos evitados, calculada por uma associação do setor com base na hipótese de que cada kWh renovável substituiria gás ou importações aos preços observados em cada hora. É um cálculo razoável e feito a partir de dados públicos da REN e do OMIE, mas não é um valor auditado nem um montante que alguém tenha deixado de pagar numa fatura concreta. Convém, por isso, lê-lo como uma ordem de grandeza do que as renováveis estão a valer ao sistema, e não como uma poupança já concretizada na fatura dos consumidores.

Perguntas frequentes 🙋‍♂️

Quanto poupou Portugal com as energias renováveis em 2026?

Segundo a APREN, a produção renovável evitou cerca de 1,92 mil milhões de euros em custos entre janeiro e setembro de 2026, repartidos por 974 milhões em importações de gás natural, 387 milhões em importações de eletricidade e 560 milhões em licenças de emissão de CO₂. O valor é uma estimativa do setor e refere-se ao sistema elétrico no seu conjunto, não a um desconto direto nas faturas.

Que percentagem da eletricidade em Portugal é renovável em 2026?

Entre janeiro e setembro de 2026, 74,1% da eletricidade produzida em Portugal teve origem em fontes renováveis, o quarto valor mais elevado da Europa. Em setembro, o peso das renováveis foi de 70,8%, com a eólica, a hídrica e a solar a representarem cada uma entre 20% e 22% da produção.

Se as renováveis poupam tanto, porque é que a luz subiu em outubro de 2026?

Porque a atualização decidida pela ERSE, com um impacto de cerca de 2,7% na fatura média, diz respeito apenas ao mercado regulado e resulta de um terceiro trimestre com menor peso das renováveis e gás natural mais caro, o que fez o custo de aquisição de eletricidade ficar 0,0176 €/kWh acima do previsto em dezembro de 2025. As renováveis baixaram o preço nos meses em que produziram muito, mas não impedem que o gás fixe o preço nas horas em que não produzem.

Com que tipo de tarifa se beneficia mais dos meses com muita produção renovável?

A tarifa indexada é a única que reflete de imediato as descidas do mercado grossista, porque o preço por kWh acompanha o MIBEL. Em contrapartida, também reflete de imediato as subidas, como aconteceu no verão de 2026. Numa tarifa fixa, a poupança só chega quando a comercializadora lança novas tarifas mais baratas ou quando o consumidor muda de contrato.

Portugal já teve dias inteiros só com eletricidade renovável?

Sim. Entre janeiro e setembro de 2026 registaram-se 715 horas não consecutivas em que a produção renovável foi suficiente para cobrir todo o consumo de Portugal continental, o equivalente a cerca de 30 dias completos. Só em setembro isso aconteceu durante oito horas.

Fontes. APREN, Boletim Eletricidade Renovável de setembro de 2026, boletim mensal; Observador/Lusa, Portugal gerou 70,8% de eletricidade renovável em setembro, notícia de 14 de outubro de 2026; APREN, Primeiro semestre marcado por 75,6% de produção renovável, comunicado de 9 de julho de 2026; APREN, Boletim Eletricidade Renovável de junho de 2026, boletim mensal; APREN, Boletim Eletricidade Renovável de abril de 2026, boletim mensal; APREN e EY-Parthenon, Estudo de impacto das energias renováveis em Portugal, comunicado de 6 de maio de 2026; ERSE, ERSE atualiza preço da tarifa de energia no mercado regulado do setor elétrico, comunicado de 15 de setembro de 2026; ERSE, Diretiva n.º 4/2026, Diário da República, 2.ª série, de 19 de outubro de 2026; Jornal Económico, APREN considera que energias renováveis continuam a garantir estabilidade no preço da eletricidade, notícia de 17 de dezembro de 2025 (atualizado a 31 de outubro de 2026).

#Energias renováveis#ERSE#fatura da luz#preço da eletricidade
Partilhar
Carlota Neves
Escrito porCarlota Neves
Neste artigoPortugal poupou quase 2 mil milhões de euros com renováveis em 2026De onde vêm os 1,92 mil milhões de euros? 💶Porque é que as renováveis fazem baixar o preço da eletricidade? ⚙️Esta poupança chega à tua fatura? 🧾Quais são os limites desta poupança? ⚠️Perguntas frequentes 🙋‍♂️

Continua a ler

Tarifas de acesso às redes em 2027: descem 13,7%, e a tua fatura?
📖 Leitura de 17 min

Tarifas de acesso às redes em 2027: descem 13,7%, e a tua fatura?

A ERSE propôs, a 15 de outubro de 2026, uma descida média de 13,7% nas tarifas de acesso às redes em Baixa Tensão Normal a partir de 1 de janeiro de 2027, uma parcela da fatura paga por todos os consumidores, incluindo os 5,85 milhões de clientes do mercado livre. O artigo explica o que são estas tarifas, porque descem (sobreganho da produção com remuneração garantida, menos quantidades abrangidas e 303 milhões de euros em medidas de contenção), quanto pode valer a descida para dois perfis típicos e porque é que a fatura final pode ainda assim subir, dado que a componente de energia está a encarecer e as comercializadoras revêem os preçários em janeiro. Inclui um guia passo a passo da tarifa social para 2027, que mantém o desconto de 33,8%, com as condições de elegibilidade e o que fazer quando o desconto não é atribuído automaticamente.

Luisa TovarLuisa Tovar•26 de Outubro de 2026
Novos períodos horários em 2027: o vazio começa meia hora mais tarde
📖 Leitura de 15 min

Novos períodos horários em 2027: o vazio começa meia hora mais tarde

A ERSE aprovou novos períodos horários para a eletricidade em Portugal continental, a aplicar entre julho e dezembro de 2027 às cerca de 500 mil casas e pequenos negócios com tarifa bi-horária ou tri-horária. Na bi-horária, o vazio do ciclo diário passa das 22h00 às 8h00 para as 22h30 às 8h30, e na tri-horária a ponta deixa de existir de manhã e concentra-se das 17h30 às 21h30, igual todo o ano. A quantidade de horas baratas não muda, muda apenas o relógio. O artigo mostra os horários novos e antigos lado a lado, explica quem é abrangido, quando chega a cada casa, o que pode mudar na fatura com exemplos concretos e o que convém rever no contrato quando o aviso da comercializadora chegar.

João HenriquesJoão Henriques•15 de Outubro de 2026
Fatura da luz no inverno, porque sobe e o que ajustar
📖 Leitura de 12 min

Fatura da luz no inverno, porque sobe e o que ajustar

A fatura da luz sobe no inverno porque consumimos mais quando está frio e porque a procura se concentra ao fim da tarde, quando já não há sol e o preço do mercado grossista é fixado pelas centrais a gás. Um estudo da Universidade de Exeter mostra que as perturbações dos ventos sobre o Ártico podem aumentar a probabilidade de picos de procura na Europa com semanas de antecedência, mas em Portugal o que decide o preço é a combinação entre frio, vento, água e gás. Explicamos o que se passa no mercado este outono e as três coisas que podes rever no contrato antes do frio chegar, a hora a que consomes, a potência contratada e a escolha entre tarifa fixa e indexada.

Luisa TovarLuisa Tovar•14 de Outubro de 2026